
Assistir o DVD Lou Reed - Rock and Roll Heart, é ter duas horas de deja-vu para quem já leu a bíblia rock/indie Mate-me Por Favor (Please Kill Me). Lançamento da série American Masters de 1998, e premiado nos festivais de Berlim e Sundance do mesmo ano, Rock and Roll Heart permite visualizar os personagens que contam as histórias loucas, engraçadas e bizarras da tríade messiânica do rock.
Imagens de arquivo se intercalam com depoimentos de Lou em Berlim, e de gente que viveu intensamente o restrito círculo Factory/Andy Warhol, como Ronnie Cultrone, Mary Woronov e Gerard Malanga (dançarinos do clássico EPI – Exploding Plastic Inevitable), Billy Name, Jim Carroll, dos Velvets Maureen Tucker e John Cale, Patti Smith, e até representantes de gerações bem mais recentes do rock, mas igualmente barulhentas e revolucionárias, como Thruston Moore e Lee Ranaldo, do Sonic Youth.
Dá para ter uma boa idéia do período áureo do rock obscuro, junkie e urbanóide de uma cena que refutava energicamente qualquer comparação com a Califórnia ensolarada, hippie, feliz e engajada da mesma época, e investia todas as fichas no cosmopolitismo iconoclasta e pretensiosamente moderno do NY underground.
Das primeiras apresentações no Max’s Kansas City e no Cafe Bizarre (mais sugestivo do que isso, não dá - um lugar com esse nome receber um grupo de dançarinos como o EPI não tinha como ser por acaso), ao incômodo visível ao tocar uma versão rápida e com a letra mudada de Heroin recentemente, Rock and Roll Heart guia o espectador por uma viagem nem sempre afável pela vida artísitca de Lou Reed e por tempos em que não se chapar muito era sinônimo de se levar uma vida medíocre e tediosa. Qualquer semelhança com os tempos atuais não deve ser mera coincidência. Afinal de contas, os ídolos continuam os mesmos...
Até os personagens de letras de músicas de Lou são mostrados no DVD, como o travesti Holly Woodlawn (quem não lembra dos primeiros versos de Walk On The Wild Side? “Holly came from Miami, F.L.A./ Hitch-hiked her way across the USA / Plucked her eyebrows on the way / Shaved her legs and then he was a she”), o também lembrado na mesma música oe Dallesandro (“Little Joe never once gave it away / Everybody had to pay and pay / A hustle here and a hustle there / New York City's the place where they said, Hey babe / Take a walk on the wild side / I said, Hey Joe / Take a walk on the wild side”) e a drag queen Candy Darling , a quem também não é feita a mais respeitosa das referências em Walk On The Wild Side (“Candy came from out on the Island / In the backroom she was everybody's darlin' / But she never lost her head / Even when she was giving head”).
Fruto de uma cuidadosa pesquisa em acervos de imagens (fotos e vídeo), estão incluídos no documentário imagens raras, como do Velvet Underground tocando na Factory, entrevista com Nico e coisas mais recentes como Lou Reed fazendo uma participação no show comemorativo dos 50 anos de David Bowie, o 50th Birthday Concert, que aconteceu em 1997 – adivinhem aonde?? No Madison Square Garden, em Nova Iorque, claro. Os dois tocam juntos Waiting For The Man, Bowie fala da colaboração no clássico dos clássicos Transformer, num momento de celebração máxima do glam, da iconoclastia e da androginia, elementos incorporados irrestritamente pelo rock e dos quais toda a cena atual de Nova Iorque pós-Strokes faz uso maciçamente.
E para quem é tão fã de Lou Reed quanto eu, indico Pass Thru Fire, paperback de quase 500 páginas que reúne todas as letras de músicas de Lou e que, infelizmente e como já era de se esperar, não foi lançado no Brasil. Mas tem no Amazon e o preço não é exorbitante (custa uns 10 dólares mais o frete).

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