Neutral Milk Hotel

"In The Aeroplane Over The Sea" não é um disco dos mais fáceis. Quem olha o disco sem atenção, apenas impressionado pela arte de primeira, mal imagina que a bandinha ali presente não adorna somente a contracapa. Ela faz parte do universo mítico, mágico e em alguns momentos épico para onde o disco nos leva.
Aperta-se o play e logo se ouve um vocal estranho e alto, quase insuportavelmente alto. O estranhamento inicial, vencido somente após algumas audições, logo cede lugar à apreciação dos ricos arranjos, do toque folk bem intimista e de alguns sons esquisitos, com destaque para os metais e cordas, presentes em várias faixas.
O disco clássico do Neutral Milk Hotel, tido por muitos como o melhor disco de 98, foi lançado recentemente no Brasil pela Peligro (www.peligro.com.br), selo que está distribuindo no país pérolas obscuras como TV On The Radio, Tortoise e Clinic com preços convidativos.
Quase uma "one man band", Neutral Milk Hotel tem um heróico Jeff Mangum, que junto com Apples in Stereo, Olivia Tremor Control e Secret Square formou o primeiro casting do Elephant 6 Recoding Company, selo do estado americano da Georgia, especializado em grupos indie/lo-fi em que os poucos músicos se revezavam tocando uns nas bandas dos outros.
O folk e a melancolia que permeiam "In The Aeroplane Over The Sea" às vezes cedem espaço para as guitarras aparecem para sujar o som em algumas faixas, a exemplo de The King of Carrot Flowers Pts. Two & Three, que evolui de vocais quase à capela que evocam Jesus Cristo a uma barulheira dos infernos, uma guitarria pra indie nenhum botar defeito.
"The Fool", faixa de número 5, traz uma marcha fúnebre no final que, assim como o final de quase todas as músicas, vai entrando num clímax tão nervoso que, quando a música acaba, dá pra suspirar aliviado.
Não se engane, no entanto, achando que o forte traço folk é o suficiente para rotular o som do Neutral Milk Hotel. Sem pose, firula ou iconoclastia alguma, o disco é altamente psicodélico. Soa retrô, mas não é cópia de nada, não remete a uma cena ou a um nicho musical específico. A psicodelia resvala em letras altamente imagéticas, no encarte que "participa" do disco como poucos outros o fazem. E onde se vê, como sugere a faixa título, o avião, de onde as cinzas das pessoas são jogadas, e o mar, destino final delas. Mas em cima do avião há um enorme gramofone e Mangum sugere que, enquanto o seu dia não chega, você deite sob o sol e tome nota de cada coisa bela que vir pelo mundo. Ele conta histórias pessoais num tom nostálgico e de imagens surreais, que acabam por transferir à música uma tristeza singela e tocante.
O melhor de se observar ouvindo em 2004 esse disco que antecede o boom do "novo" rock
é que, apesar do hype e do mérito de algumas bandas da safra pós-Strokes, que investem no rock "bê-a-bá" e optam pela simplicidade, ouvindo-se "In The Aeroplane..." nota-se que o rock pode, sim, ser ainda mais interessante sem ser tosco, engraçadinho ou poser, e que é mais do que saudável que existam bandas que sigam com maestria outra cartilha.

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