Long live Morotó!

A idéia inicial da odisséia Bonfim era ir cedo, cedinho mesmo, para acompanhar um pedaço do cortejo (8,5 km não dá para mim, definitivamente!), as charretes, as baianas e tudo mais que eu imaginava que devia existir na fauna eclética que freqüenta a Lavagem do Bonfim. É verdade... eu, nascida e criada em Salvador, nunca participei nem assistindo de longe da festa. No máximo pela televisão. Aliás, devo confessar que não sou uma fã incondicional das festas de largo, salvo a de Yemanjá/Rio Vermelho, mas muito mais por causa da esbórnia na casa de Spencer do que por qualquer outro motivo. Ok, ok, nunca fui na Lavagem do Bonfim, mas também nunca fui no Bonfim Light. Estou perdoada, então.
Esse ano, eu estava disposta a me redimir com o santo mais adorado pelos baianos e assistir toda a movimentação, desde a parte sagrada até a ultra profana, o Bonfim Hard, no Beco de Morotó. O objetivo teria até sido alcançado com louvor, não fosse a força maior que normalmente impera sobre mim todas as manhãs e me impede de acordar antes das 2 da tarde.
Conformada com mais um ano de dívida acumulada com o Senhor do Bonfim, resolvi me contentar com a idéia de que era hora de diminuir a dívida com o rock, pelo menos, já que andei um tanto ausente dos shows nesses últimos dias.
Na verdade, acreditar nisso ou em qualquer motivo de preferência mais forte é importante – essencial, eu diria – para fazer valer a pena o ultra-mega-hiper engarrafamento e todos os caminhos interditados nos quais se esbarra para chegar pelo menos perto da rua Travasso de Fora de carro.
Por breves instantes, me bateu uma péssima sensação de deja-vu quando um chuvisco começou a cair. Lembrar do dilúvio do ano passado, das seis pessoas apertadas e perdidas pela Cidade Baixa à noite em meio a ruas completamente alagadas, carro quebrado no meio não sei de onde, xixi na praia e reboque que demorou três horas para chegar era, no mínimo, assustador. Pelo menos dessa vez eram só duas pessoas.
Mais de uma hora depois, caronas doidas a desconhecidos, ruelas canhestras e nenhum senso de orientação, eis que conseguimos estacionar, orientados pelo brother que pegamos no meio do caminho (“Paaaaara aaaaqui meeeesmo, que tttttttá perto” (!)”.

Lá pelas 6 da tarde, quando finalmente avistamos o toldo branco na pequena varanda da casa de Dona Berenice, os Retrofoguetes já estavam tocando. Por sorte, tinha começado há pouco tempo.
Dona Berenice é a simpática mãe de Morotó, que há uns 8 anos presencia na modesta casinha de esquina, na segunda quinta-feira do ano, uma confusão dos infernos, gente a torto e a direito e barulho, muito barulho. Apesar do som um tanto baixo e do PA de voz que não colaborou, Retrofoguetes e Nancyta e os Grazzers não tiveram muita dificuldade para mostrar porque encabeçam o top top das bandas baianas, e não devem nada às melhores bandas do país.
Os Retros mandaram o repertório tradicional, com os “hit covers” tipo Misirlou e Hawaii 5.0, mas sem as cantadas por Nancyta, como These Boots Are Made For Walking, Taxman, Invasion of the Body Snatchers e Sloop John B. Para os fãs dos Grazzers, foi uma ótima oportunidade de conferir a banda ao vivo, depois de um tempão sem tocar, em processo de composição e ensaios para a gravação do disco novo, que deve sair ainda nesse semestre. E tome-lhe barulho: Afheganistix, Minimoney, Esse Coqueiro, I Don’t Know e covers foda (Jailbreak, por exemplo)
Depois das duas atrações principais, a graça ficou por conta das jams, com Paquito e andré t. tocando, e das bandas que tocaram depois, mas cujos nomes eu não vou conseguir lembrar agora de jeito nenhum. Uma delas só tocou covers muito conhecidos, e foi lindo ver uma galera enorme, totalmente diferente da que freqüenta o circuito “oficial” do rock soteropolitano, pogando em pleno Bonfim ao som de Smells Like Teen Spirit.
* Fotos por Nancyta
Gabriela, que tinha esquecido como homemade drinks docinhos eram deliciosos e perigosos!

<< Home